
Foto: sbcm.org.br
Escrito por Wallace Grangeiro
A hanseníase segue configurando um problema relevante de saúde pública no município de Milagres. A análise epidemiológica do período de 2015 a 2025, realizada pela secretaria municipal de Saúde, revela a ocorrência contínua de casos ao longo de toda a série histórica, totalizando 57 notificações, o que caracteriza um padrão endêmico e confirma a manutenção da transmissão ativa da doença no território.
De acordo com os dados consolidados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, a presença de casos em praticamente todos os anos analisados afasta a hipótese de eliminação da hanseníase como problema de saúde pública no município e reforça a necessidade de vigilância permanente, diagnóstico oportuno e fortalecimento das ações na Atenção Primária à Saúde.
Distribuição temporal indica flutuações associadas à vigilância
A análise da distribuição anual dos casos evidencia oscilações interanuais típicas de agravos crônicos de longa incubação. Os anos de 2016, 2022 e 2025 concentraram as maiores proporções de notificações, com destaque para 2022, que respondeu por 21,05% do total de casos registrados no período.
Segundo a análise técnica, esses picos podem refletir momentos de maior sensibilidade do sistema de saúde local, associados à intensificação da busca ativa, campanhas educativas, capacitação das equipes ou ampliação do acesso aos serviços de diagnóstico. Em contrapartida, anos com menor número de registros, como 2017, 2020, 2023 e 2024, não devem ser interpretados como redução real da incidência, podendo indicar subdiagnóstico ou diminuição das ações de vigilância ativa.
Predomínio de casos em homens reforça necessidade de estratégias específicas
Do total de casos registrados entre 2015 e 2025, 73,68% ocorreram em indivíduos do sexo masculino, enquanto 26,32% foram identificados em mulheres. O predomínio masculino foi observado de forma consistente ao longo da série histórica, com destaque para o ano de 2022, quando mais de 90% das notificações ocorreram entre homens.
Esse padrão está alinhado ao perfil epidemiológico descrito nacionalmente e é associado, sobretudo, a fatores sociais e comportamentais, como a menor procura dos homens pelos serviços de saúde e o diagnóstico frequentemente realizado em estágios mais avançados da doença, muitas vezes relacionados às formas multibacilares, que apresentam maior potencial de transmissão.
Faixa etária evidencia diagnóstico tardio e transmissão ativa
A distribuição dos casos por faixa etária demonstra concentração expressiva entre adultos e idosos. A faixa de 40 a 59 anos concentrou 45,61% das notificações, seguida pelo grupo com 60 anos ou mais, responsável por 33,33% dos casos. Esse perfil indica que muitos indivíduos podem ter sido infectados anos antes do diagnóstico, permanecendo longos períodos sem identificação da doença.
A presença de casos em adolescentes de 10 a 19 anos, ainda que em menor proporção, representa um importante alerta epidemiológico. Segundo a análise, a ocorrência nessa faixa etária indica transmissão ativa e recente no território, geralmente associada à exposição domiciliar contínua, reforçando a importância da vigilância de contatos e das ações educativas.
Raça e cor evidenciam desigualdades sociais
A análise por raça e cor revela maior ocorrência da hanseníase entre pessoas pardas, que representaram 59,65% dos casos, seguidas por pessoas pretas, com 22,81%. Pessoas brancas corresponderam a 15,79% das notificações. Embora raça e cor não sejam determinantes biológicos diretos, os dados atuam como marcadores sociais de iniquidades, refletindo desigualdades no acesso ao diagnóstico, ao cuidado contínuo e à prevenção de incapacidades.
Monitoramento contínuo é essencial para o controle da doença
As considerações finais do estudo apontam que a hanseníase permanece como agravo de interesse para a saúde pública em Milagres, exigindo ações sustentadas de vigilância epidemiológica, integração com a Atenção Primária, qualificação das equipes e fortalecimento da busca ativa e do acompanhamento de contatos.
Diante do cenário epidemiológico da hanseníase no município, a Secretaria de Saúde manifestou preocupação quanto à necessidade de intensificar ações oportunas, integradas e territorializadas, capazes de interromper a cadeia de transmissão e reduzir o diagnóstico tardio. Nesse contexto, ainda no início do mês de janeiro, foi realizada a primeira reunião das coordenações da Secretaria de Saúde, momento estratégico em que se procedeu à análise da situação epidemiológica local e ao delineamento das principais estratégias e atividades que norteariam a campanha do Janeiro Roxo. Essa reunião permitiu o alinhamento intersetorial e o planejamento de ações educativas, assistenciais e de vigilância, reconhecendo a hanseníase como um agravo que exige abordagem contínua e sensível às especificidades do território.
A primeira atividade prevista e executada no âmbito da campanha foi a Atualização sobre Hanseníase para os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), realizada no dia 19 de janeiro de 2026, no auditório da EEEP Irmã Ana Zélia da Fonseca. O momento formativo abordou aspectos conceituais, sinais e sintomas, diagnóstico, tratamento e seguimento dos casos, com ênfase no papel estratégico do ACS na busca ativa de casos suspeitos, no acompanhamento de pessoas em tratamento e na vigilância de contatos domiciliares, reforçando sua centralidade no enfrentamento desse agravo no território.
Dando continuidade às ações do Janeiro Roxo, no dia 22 de janeiro de 2026, o tema foi pautado no jornal de notícias da Rádio Livre FM, por meio da participação do enfermeiro Dr. Wallace Grangeiro Coelho, Técnico Responsável pela Vigilância em Saúde do município, e da Dra. Rosa Maria Grangeiro Martins, enfermeira e estomaterapeuta do Serviço de Estomaterapia do Hospital Municipal Nossa Senhora dos Milagres. Na ocasião, foram discutidos a importância da campanha do Janeiro Roxo, os aspectos epidemiológicos da hanseníase em nível municipal, o diagnóstico precoce, o tratamento adequado, o seguimento dos casos e de seus contatos domiciliares, bem como a relevância da vacinação com a BCG para os contatos, como estratégia de proteção adicional.
Além dessas ações iniciais, está prevista, ao longo de todo o mês, a realização de postagens educativas nas redes sociais institucionais, com orientações sobre como identificar lesões e manchas suspeitas de hanseníase no próprio corpo, bem como a divulgação de vídeos educativos, visando ampliar o alcance das informações junto à população. Como culminância da campanha, será realizada, no final do mês, uma ação comunitária no Distrito Padre Cícero, intitulada "Dia D da Mancha", com o objetivo de promover a busca ativa de casos suspeitos, fortalecer a educação em saúde e possibilitar o atendimento direto da população por profissionais de enfermagem e medicina, reafirmando o compromisso da gestão municipal com o enfrentamento da hanseníase e a promoção do cuidado integral no território.